Sábado, 22 de Dezembro de 2007

MENTIRAS COTIDIANA



A mentira é filha da necessidade. Convenço-me disso cada vez mais. Falo, porém, da mentira inocente. Incapaz de resultar em prejuízo a outrem. A chamada "lorotinha". Como a do sujeito que chega em casa tarde da noite, recendendo à cerveja. Ante a impaciência da mulher, vai logo contando que o pneu do carro furou.
- E esse cheiro de álcool? ela quer saber, irritada.
Ele não disfarça o desembaraço, sorri amarelo, e por fim explica que tomou duas enquanto esperava o borracheiro fazer o serviço.
Tem gente, contudo, que mente por satisfação. Quem não conhece um tipo desses, que tudo na vida já viu ou já fez? Alguns são tão convincentes que merecem o benefício da dúvida. Conheci um assim. Contava histórias com tamanha convicção que no início acabou me induzindo a acreditar em sua veracidade. Depois de algum tempo, somando-se os fatos que atribuía à própria existência, fazia pensar, porém, que tinha mais de século e meio de idade.
Há quem minta por compulsão. Esse tipo geralmente começa contando um caso verídico. Mas pelo meio da narrativa, não se contendo com a possibilidade de lhe acrescentar um tempero, inventa coisas, avulta outras. Não dá importância ao fato de ter ou não o crédito de seus interlocutores. Basta-lhe a realização de poder alterar um acontecimento.
Outros mentem para se auto-afirmar. Suas mentiras estão voltadas, quase sempre, para os bens materiais, que juram possuir em abundância. Não se conformam em levar uma existência frugal, e assim vivem de multiplicar tesouros desencavados da imaginação.
Alguns se diplomam na arte de contar inverdades. Mas esses estão em um nível acima de todos os outros, capazes que são de transformar um fato fictício em deslavada realidade, e ainda se beneficiar da prestidigitação. Ludibriar os demais é uma questão de treino e muita honra. Vivem, portanto, a se gabar das próprias habilidades. E não se cansam de se aperfeiçoar no ofício que escolheram.
Somos levados a acreditar, pelo que vemos constantemente, que mentir bem é pressuposto básico à obtenção de êxito. O humorista Chico Anísio satirizou essa constatação em um dos seus personagens, o Nico Bondade. Tratava-se de um sujeito entrado em anos, que se esfalfava atrás de emprego e nunca conseguia um. E era sempre preterido porque falava a verdade sobre si mesmo. Confessando sua inaptidão para os serviços disponíveis, Nico Bondade via-se obrigado a martelar, assim que era dispensado, o bordão "mas eu não sei mentir".
O escritor Lima Barreto, outro exímio criador de tipos, reforçou essa noção no conto "O Homem que Sabia Javanês". Castelo, o personagem principal da história, candidata-se ao cargo de professor da língua falada em Java - a qual não sabe absolutamente nada -, e faz carreira em cima dessa mentira. Torna-se, enfim, cônsul em Havana, depois de ter participado de um congresso de sábios.
Simular possuir o que na verdade não se tem me parece uma forma estilizada - digamos assim - de contar loas. Lima Barreto foi um crítico severo da sociedade em que viveu, por ver nela algumas anomalias que se proliferaram nos dias atuais. Castelo não me perece figura saída dos porões de sua fértil imaginação de literato, mas uma personalidade forjada nas observações cotidianas.
O ser humano, não obstante as evidências contrárias, não foi feito para mentir. Tanto que é possível, através do detector de mentiras, medir-lhe as alterações orgânicas quando não diz a verdade. O aparelho, capaz de detectar sutis modificações na voz e no sistema nervoso, foi inventado com base nas idéias de Césare Lombroso, psiquiatra e criminalista italiano. Mas pouco tem servido à sociedade, que poderia evitar, por exemplo, uma série de indivíduos contraproducentes se obrigasse a passar pelo teste todos aqueles que desejam ingressar na política.
E por falar nisso, o imaginário popular pinta o diabo como um ser ardiloso e capaz de comprometer qualquer pessoa com suas artimanhas. A arma mais poderosa que possui é justamente a capacidade de mentir. O povo teme as proezas do diabo, e desde pequenos somos levados a crer que o mentiroso acaba no inferno.
Mas há mentiras nas quais teimamos em acreditar, mesmo que elas nos custem a alma. O político inescrupuloso sabe disso. O publicitário, o artista de sucesso e o advogado de má índole também. E ainda alguns mercadores da fé, como aquele dono de uma emissora de televisão.
Há algum tempo uma cartomante falou à Vássia, minha mulher, que ela se casara com um homem predestinado à fortuna. E para provar a exatidão de tal afirmativa, sustentou diante de seus olhos, grave, a carta em que havia a figura de uma moeda de ouro.
Fiz pouco caso do episódio e, pragmático, ri de sua disposição em visitar esse tipo de gente, dando-lhe atenção às charlatanices. Mas lá no fundo, bem no fundo de mim mesmo, só eu sabia como eram doces aquelas palavras.

Doces mentiras

Escrito por ronaldo allyson em 16:55:09 | Link permanente | Comments (0) |

Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

O ÓLEO DA LOIRA



Coisa mais nonsense: ser visitado por Dona Sônia numa manhã preguiçosa de sábado. Devia ainda estar dormindo, é certo que era sonho. Quem era a tal Dona Sônia, mesmo?

- Te levanta, Cristo! – ouviu a mãe berrar lá da cozinha uma outra vez. – Aposto que ela já está vindo!

Não se mexeu. Coisa boa uma manhã vagabunda, depois de uma noitada vagabunda, cercado de vagabundas.

Ligou o rádio, cujo dial inventara de congelar-se inapelavelmente nas alturas da Rádio Caiçara. A voz de Wando inundou o quarto com um odor de perfume barato. Enfiou-se outra vez embaixo das cobertas, camuflou a cabeleira sob o travesseiro e quis morrer. Você é luz, raio, estrela e luar... Você é faísca, fósforo, lampião, farol, lanterna, facho, archote... Você é cometa, vaga-lume, aurora boreal, incêndio, lamparina, noctiluca miliaris, isqueiro bic, pisca-pisca.

Enfiou a mão sob o calção largo e conferiu as bolas: seguiam sendo duas, meio desemparelhadas, uma mais recolhida que a outra.

- Quem mandou estudar engenharia? Agora aguenta... – ouviu a mãe gritar do outro lado da porta.

Cheirou a ponta dos dedos e pensou bobagem. Engenheiro agora tinha que atender consultas aos sábados de manhã? Quem sabe a Dona Sônia não se interessa por brincar de barco à vela matinal, ou subir aqui no meu carro alegórico, ensaiando o desfile triunfal na garagem do meu acolchoado xadrez? Sentiu avolumar-se o seu interesse por vizinhas e voltou a escorregar a mão para dentro do calção.

Ouviu movimento do lado de fora da porta, passos, risinhos, ora vejas, deixa dissos.

A porta de seu quarto escancarou-se num repente. Uma loiraça escultural preencheu o vão como se fosse um três por quatro de amador, iluminada de través.

- Tá aí a Tânia, guri, eu te avisei há horas para levantar! Vamos, vamos,...

- Deixa ele, Dona Cíntia, eu volto outra hora.

Tânia, Tânia, Tânia,... Quantas vezes a seguira desde a padaria ou pensara puxar conversa no Ipiranga-Sabará! Quantas vezes acompanhara sorrateiro os movimentos do seu quadril, descendo a rua suave e balouçante como se fora uma charrete com rodado de pneu.

- Oi – arriscou ela, desde a porta. – Eu só queria saber como se troca o óleo... Eu nunca fiz...

Salgado petrificou-se no berço, a meia ereção agora já tornando impossível erguer-se com um mínimo de elegância.

- Já tentou o manual?... Na primeira vez, é sempre bom ter à mão o manual... - balbuciou, hipnotizado pela loiraça, enquanto pensava safada, safada, tá me testando.

E estendeu-lhe a mão para distraí-la, enquanto procurava sentar-se, embolando o cobertor sobre o calção vermelho, três listras brancas na lateral. Por sorte, vestia o seu preferido, imitação da adidas.

- Tua mão está quente – disse Tânia, surpresa por dizê-lo, as bochechas em fogo.

- Lubrax-4, Lubrax-4... – foi tudo que ocorreu ao Salgado responder-lhe, enquanto reafirmava para si mesmo, safada, safada, tá me provocando.

Tânia ficou olhando o perfil adunco de Salgado contra o fundo iluminado da veneziana.

- Tu é meio parecido com o Dom Quixote... – pensou alto.

- O óleo nós podemos comprar no Carrefour... – emendou Salgado, enquanto via aterrorizado a loirosa levar ao nariz os dedos da mão que o cumprimentara.

- Esse outro cara eu não conheço – disse, torcendo para que o Lubrax-4 ainda estivesse em linha de fabricação.

- Dom Quixote, o dos moinhos de vento, da Dulcinéia, do Sancho Pança – explicou a Tânia, estranhando o cheiro de mar que trazia nos dedos.

- Minha vida é aqui no Sabará, Jardim Ipiranga, Vila Jardim... muito mais eu não conheço. Se tu me esperar na sala, já me visto. Ou vais querer trocar o óleo aqui mesmo? – insinuou-se.

- Eu não queria te tirar da cama...

- Se eu soubesse nem me levantava... – falou Salgado, entre sorrisos, marotos sorrisos, pensando mas que safada!.

- Sem levantar, não ias poder trocar o óleo – raciocinou a Tânia, os olhos em arco.

Safada, safada, levantar o quê, cara-pálida? pensou Salgado, outra vez.

- Já estava de pé quando tu chegaste! – tentou recuperar-se, a mão outra vez juntando as bolas sob o cobertor, e escorrendo depois para o membro meia-bomba, quem ela estava pensando que ele era?

- Não me pareceu! - desdenhou a Tânia, olhando longamente para a cama desarrumada, o quarto escurecido, o rádio que agora tocava Feelings.

- Quem nunca trocou o óleo não percebe certas coisas. Acho que não olhaste direito! – empertigou-se Salgado, achando que era hora de mostrar-lhe o que escondia por sob o cobertor.

- Mas que coisa, guri, tu ainda estás aí enroscado nessa cama, deixando a Taninha esperar... Que fedor, esse teu quarto!... Vem cá, querida, vou te dar um café enquanto esse troncho se ajeita. ... Lindo, o teu Chevette...

- É... – ouviu a loiraça dizer, enquanto saía. - E a Dona Sônia, por que não veio?

- Ela já está meio velhinha, coitada. Só me disse para vir aqui, que o Salgado quebrava o meu galho. Preciso trocar o óleo, sabe?

Minha mãe sempre estragando os lances, pensou Salgado, enquanto se levantava, o membro bruscamente emurchecido parecendo uma rolha de champanhe caída de lado, dentro do calçãozinho grená.

Safada, safada, um dia ainda vou trocar esse teu óleo. Nem que seja nos confins dos Andes, nem que eu tenha que enfrentar os escorpiões do Deserto de Atacama, nem que eu tenha que pagar o mico de queimar as bolas sob o sol escaldante do verão nas altitudes da Argentina, nem que eu tenha que aguentar a tua confraria de amigos metidos a sabichões, nem que...

- Anda, Salgado, vai trocar o óleo da moça! – ouviu sua mãe ordenar, impaciente.

O rádio agora inventava maravilhas sobre um tal de Capiloton, o protetor do seu penteado. Nunca iria precisar disso, riu-se sozinho, afagando a basta cabeleira.

Só então ele foi.

por Miguel da Costa Franco
mig@portoweb.com.br

Escrito por ronaldo allyson em 18:51:13 | Link permanente | Comments (0) |

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007





Francis Schaeffer morreu em 1984, mas, se não fosse por ele, George W. Bush não estaria na Casa Branca, não haveria guerra no Iraque e o mundo provavelmente estaria melhor.


Eu duvido que você saiba quem é Francis Schaeffer. Noventa e nove por cento dos americanos não sabem e até a semana passada eu estava dentro desta estatística. Aprendi com o livro Crazy for God (Louco por Deus).

Francis Schaeffer veio da classe média baixa na Pensilvânia. A mulher Edith, filha de missionários na China, veio de família bem-educada, mas foi ele quem se tornou, de 1960 a 1980, o mais influente líder religioso americano.

Na década de 50, interessados em religião, filosofia e arte, Francis e Edith criaram uma missão evangélica na Suíça, uma espécie de comuna religiosa chamada L'Abri.

Deus, Satã, Darwin, Heidegger, o existencialismo de Sartre estavam nos sermões e nos debates.

Americanos e europeus se reuniam em torno da família Schaeffer – agora com um filho e três filhas.

A mesa era fina, com toalhas brancas e talheres de prata. Comia-se bem, mas os prazeres telúricos terminavam ali. Música, só clássica e aos domingos. Dança, jogos de cartas e álcool, jamais.

A educação era feita em casa e o comportamento rígido vinha de Calvino.

Na decada de 70, quando a direita cristã ainda não existia, o filho Frank convenceu o pai a fazer uma série de filmes e um livro. O titulo de ambos era How Should We Then Live? (Como nós devemos então viver? )

Líderes evangélicos se entusiasmaram com as idéias de Francis Schaeffer, e em poucos anos ele era a principal fonte de idéias dos evangélicos. Bily Graham e outros faziam romarias ao L'Abri para ouvir o mestre que conseguia atrair até jovens.

Pai e filho Schaffer fizeram um outro filme Whatever Happened to the Human Race (O que aconteceu com a raça humana), e Francis publicou o A Christian Manifesto (Um manifesto cristão). Em pouco tempo, se tornaram o cavalo de batalha contra o aborto.

Na década de 80, a direita evangélica já estava a todo vapor liderada por Pat Robertson, James Dobson, Jerry Falwell, Tim LaHaye.

A convite deles, o velho Schaeffer veio fazer sermões no circuito evangélico. Ficou abismado com a ganância, a hipocrisia, a vaidade, a corrupção e a sede de poder dos lideres que suas idéias tinham gerado.

Shaeffer era um homem tolerante em questões sociais e sexuais e nunca condenou o homossexualismo. Gays, mães solteiras e muitos hippies encontravam abrigo seguro no L'Abri.

Viveu grande parte da vida na Suíça e tirava férias na Italia, mas era um otimista com relação aos Estados Unidos.

O maior choque dele foi com a distorção das suas idéias para efeito político e enriquecimento dos evangélicos. Eles fabricaram um cenário americano apocalíptico envenenado pelos gays, feministas, mães solteiras e liberais.

Quanto mais decadente a sociedade, quanto maior o demônio, melhor para os evangélicos. Eles eram o caminho da salvação, mas precisavam de dólares para seus jatos particulares e para eleger seus políticos.

Schaeffer comentou sua grande decepção com os amigos, mas morreu de câncer antes de torná-las publicas.

Quem devassa essa direita cristã é o filho dele, Frank, que, com o pai, inconscientemente gerou os monstros que ele agora denuncia no seu livro Crazy for God : How I Grew Up as One of the Elect, Helped Found the Religious Right and Lived to Take All (or Almost All ) of It Back (Louco por Deus: Como eu cresci como um dos eleitos, ajudei a fundar a direita religiosa e vivi para retirar tudo (ou quase tudo) que disse).

Os evangélicos acham que Frank é um novo Judas e neste momento não estão loucos por Deus. Estão loucos de raiva.


por: Lucas Mendes BBC Brasil













 
Escrito por ronaldo allyson em 21:51:43 | Link permanente | Comments (0) |