MENTIRAS COTIDIANA

- E esse cheiro de álcool? ela quer saber, irritada.
Ele não disfarça o desembaraço, sorri amarelo, e por fim explica que tomou duas enquanto esperava o borracheiro fazer o serviço.
Tem gente, contudo, que mente por satisfação. Quem não conhece um tipo desses, que tudo na vida já viu ou já fez? Alguns são tão convincentes que merecem o benefício da dúvida. Conheci um assim. Contava histórias com tamanha convicção que no início acabou me induzindo a acreditar em sua veracidade. Depois de algum tempo, somando-se os fatos que atribuía à própria existência, fazia pensar, porém, que tinha mais de século e meio de idade.
Há quem minta por compulsão. Esse tipo geralmente começa contando um caso verídico. Mas pelo meio da narrativa, não se contendo com a possibilidade de lhe acrescentar um tempero, inventa coisas, avulta outras. Não dá importância ao fato de ter ou não o crédito de seus interlocutores. Basta-lhe a realização de poder alterar um acontecimento.
Outros mentem para se auto-afirmar. Suas mentiras estão voltadas, quase sempre, para os bens materiais, que juram possuir em abundância. Não se conformam em levar uma existência frugal, e assim vivem de multiplicar tesouros desencavados da imaginação.
Alguns se diplomam na arte de contar inverdades. Mas esses estão em um nível acima de todos os outros, capazes que são de transformar um fato fictício em deslavada realidade, e ainda se beneficiar da prestidigitação. Ludibriar os demais é uma questão de treino e muita honra. Vivem, portanto, a se gabar das próprias habilidades. E não se cansam de se aperfeiçoar no ofício que escolheram.
Somos levados a acreditar, pelo que vemos constantemente, que mentir bem é pressuposto básico à obtenção de êxito. O humorista Chico Anísio satirizou essa constatação em um dos seus personagens, o Nico Bondade. Tratava-se de um sujeito entrado em anos, que se esfalfava atrás de emprego e nunca conseguia um. E era sempre preterido porque falava a verdade sobre si mesmo. Confessando sua inaptidão para os serviços disponíveis, Nico Bondade via-se obrigado a martelar, assim que era dispensado, o bordão "mas eu não sei mentir".
O escritor Lima Barreto, outro exímio criador de tipos, reforçou essa noção no conto "O Homem que Sabia Javanês". Castelo, o personagem principal da história, candidata-se ao cargo de professor da língua falada em Java - a qual não sabe absolutamente nada -, e faz carreira em cima dessa mentira. Torna-se, enfim, cônsul em Havana, depois de ter participado de um congresso de sábios.
Simular possuir o que na verdade não se tem me parece uma forma estilizada - digamos assim - de contar loas. Lima Barreto foi um crítico severo da sociedade em que viveu, por ver nela algumas anomalias que se proliferaram nos dias atuais. Castelo não me perece figura saída dos porões de sua fértil imaginação de literato, mas uma personalidade forjada nas observações cotidianas.
O ser humano, não obstante as evidências contrárias, não foi feito para mentir. Tanto que é possível, através do detector de mentiras, medir-lhe as alterações orgânicas quando não diz a verdade. O aparelho, capaz de detectar sutis modificações na voz e no sistema nervoso, foi inventado com base nas idéias de Césare Lombroso, psiquiatra e criminalista italiano. Mas pouco tem servido à sociedade, que poderia evitar, por exemplo, uma série de indivíduos contraproducentes se obrigasse a passar pelo teste todos aqueles que desejam ingressar na política.
E por falar nisso, o imaginário popular pinta o diabo como um ser ardiloso e capaz de comprometer qualquer pessoa com suas artimanhas. A arma mais poderosa que possui é justamente a capacidade de mentir. O povo teme as proezas do diabo, e desde pequenos somos levados a crer que o mentiroso acaba no inferno.
Mas há mentiras nas quais teimamos em acreditar, mesmo que elas nos custem a alma. O político inescrupuloso sabe disso. O publicitário, o artista de sucesso e o advogado de má índole também. E ainda alguns mercadores da fé, como aquele dono de uma emissora de televisão.
Há algum tempo uma cartomante falou à Vássia, minha mulher, que ela se casara com um homem predestinado à fortuna. E para provar a exatidão de tal afirmativa, sustentou diante de seus olhos, grave, a carta em que havia a figura de uma moeda de ouro.
Fiz pouco caso do episódio e, pragmático, ri de sua disposição em visitar esse tipo de gente, dando-lhe atenção às charlatanices. Mas lá no fundo, bem no fundo de mim mesmo, só eu sabia como eram doces aquelas palavras.
Doces mentiras







Comentários Recentes
Me interesso muito pel